Vai ficar mais difícil conseguir crédito habitação? O que está a mudar e como se pode preparar

Nas últimas semanas voltou a intensificar-se a discussão sobre possíveis alterações às regras do crédito habitação em Portugal.

O Banco de Portugal tem vindo a sinalizar uma linha mais exigente na forma como os bancos avaliam pedidos de financiamento, sobretudo no que diz respeito à taxa de esforço e à margem de segurança associada a cada operação.

Este tipo de discussão tende a ter um efeito imediato no mercado: quem está a pensar comprar casa começa a questionar se deve avançar já ou esperar.

Ainda não há mudanças em vigor, mas a direção é clara: o crédito tende a ser analisado com critérios cada vez mais conservadores.

O que pode mudar na prática

O ponto mais discutido é a possível redução da taxa de esforço máxima considerada pelos bancos, dos atuais 50% para 45%.

Na prática, isto traduz-se numa menor margem para comprometer rendimento mensal com crédito, o que pode reduzir o valor máximo financiado em alguns perfis.

Em paralelo, está também em cima da mesa a redução de exceções atualmente usadas pelos bancos na análise dos processos, aproximando os critérios entre instituições.

Outro tema relevante prende-se com os prazos de financiamento, com possível maior diferenciação entre perfis, sobretudo no acesso a prazos mais longos por parte de clientes mais jovens.

Nada disto está fechado, mas o sentido é consistente: menos flexibilidade na análise e maior uniformização de critérios.

A taxa de esforço continua a ser o primeiro filtro

Apesar de toda a evolução do mercado, a taxa de esforço continua a ser um dos primeiros pontos de bloqueio ou limitação no crédito habitação.

Mais do que um indicador teórico, é aqui que muitos processos começam a ser condicionados.

Representa a percentagem do rendimento que já está comprometida com créditos existentes, e é um dos fatores mais sensíveis na análise de risco.

Quem tende a sentir mais impacto

Na prática, não estamos perante uma mudança uniforme para todos os perfis.

O impacto sente-se sobretudo em situações como:

  • agregados com outros créditos ativos
  • financiamentos elevados face ao rendimento
  • compradores sem segundo titular no crédito
  • rendimentos mais baixos ou instáveis
  • situações já próximas do limite de esforço admissível

O efeito mais comum não é a recusa, mas sim a redução do montante máximo que o banco aceita financiar.

Jovens compradores e o enquadramento atual

A entrada de jovens no mercado imobiliário tem sido um dos temas mais acompanhados.

Os mecanismos de apoio à primeira habitação permitiram, em muitos casos, reduzir a necessidade de entrada inicial e facilitar o acesso ao crédito.

Ao mesmo tempo, tem sido admitida a possibilidade de ajustes específicos para este segmento, tendo em conta a pressão crescente no acesso à habitação.

Ainda assim, tudo dependerá da versão final das medidas e da forma como forem operacionalizadas pelos bancos.

O erro mais comum: olhar apenas para o rendimento

Uma das perceções mais frequentes no crédito habitação é assumir que um rendimento mais elevado garante aprovação.

Na prática, isso nunca foi suficiente.

A análise bancária resulta sempre da combinação de vários fatores:

  • estabilidade profissional
  • histórico de crédito
  • nível de endividamento existente
  • valor da entrada
  • avaliação do imóvel
  • comportamento financeiro ao longo do tempo

É por isso que dois perfis aparentemente semelhantes podem ter resultados completamente diferentes.

Como se preparar para o processo

Independentemente das alterações regulatórias, há fatores que continuam a ter impacto direto na aprovação e nas condições de crédito.

  • Reduzir encargos financeiros antes da compra aumenta margem de aprovação e melhora o enquadramento da taxa de esforço.
  • Evitar novos créditos nos meses anteriores ao pedido evita penalizações desnecessárias na análise.
  • Reforçar a entrada inicial reduz o risco percecionado pelo banco e pode melhorar significativamente as condições propostas.

E, acima de tudo, faz diferença chegar ao processo com uma noção clara do orçamento real disponível.

Mais do que regras, o que determina o resultado é o enquadramento

As regras mudam. O mercado ajusta-se. Os critérios evoluem.

Mas o que se mantém constante é o impacto da preparação com que se entra no processo.

Na Findigno, a experiência mostra que a diferença raramente está na aprovação em si, está na qualidade do enquadramento inicial e nas decisões tomadas antes de avançar para o banco.